segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"Vejo tudo sem vaidade"


Blogueiro tem hino? Não...?! Bom, se não tem ainda, quero fazer uma sugestão... Abaixo vai um trechinho de uma canção muito bacana de Mariana Aydar – cantora e compositora de Sampa (quem ainda não a conhece não sabe o que tá perdendo!!)


“Eu me entendo escrevendo

E vejo tudo sem vaidade

Só tem eu e esse branco

Ele me mostra o que eu não sei

E me faz ver

O que não tem palavra

Por mais que eu tente, são só palavras

Por mais que eu me mate, são só palavras”


Pra quem quiser ouvir o 'hino' todo é só acessar o link abaixo e procurar por "Palavras não falam":

http://www.myspace.com/marianaaydar

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"Penso melhor quando ouço"



Em lembrança de Claude Lévi-Strauss


Aproveitando o momento musical desse blog, cito um pequeno trecho do final da famosa entrevista que Claude Lévi-Strauss concedeu à Didier Eribon. Uma singela homenagem a quem foi, para muita gente bacana, um dos maiores profissionais em sua área... Manuela Carneira da Cunha, por exemplo, disse: “Claude Lévi-Strauss, como declarou no ano passado o antropólogo inglês Stephen Hugh-Jones, não é apenas o maior antropólogo francês do século XX. Lévi-Strauss é o maior antropólogo, ponto”.



“A música tem um grande significado em sua vida?

Enorme. Ouço-a o tempo todo, trabalho com música. Isso pode atrair sobre mim a reprovação dos melômanos, que me acusarão de fazer da música um ruído de fundo. As coisas são mais complicadas, e eu teria dificuldade em explicar a relação entre meu trabalho e a música, a não ser, talvez, através de uma comparação. Porque o nu tem um lugar tão destacado na pintura? Poderíamos pensar que é por causa da beleza intrínseca de um corpo. O motivo me parece outro. Mesmo o pintor mais blasé, habituado a usar modelos, não pode deixar de sentir, à vista de um belo corpo, uma certa excitação erótica. Essa leve ereção estimula-o e aguça-lhe a percepção; ele pinta melhor. Consciente ou inconscientemente o artista busca esse estado de graça. Minha relação com a música é de mesma ordem: penso melhor quando ouço. Uma relação de contraponto estabelece-se entre a articulação do discurso musical e o fio da minha reflexão. Ora andam juntos, ora separam-se, e finalmente se reencontram. Quantas vezes não percebi – mas só depois – que, escutando uma obra, eu deixava de ouvi-la enquanto uma ideia nascia! Após essa separação temporária que o torna autônomo, meu pensamento engrena-se novamente na obra, como se o discurso mental, por um momento, tivesse se revezado com o discurso musical, mas permanecendo em cumplicidade com ele”


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tocar a vida


Arismar do Espírito Santo é uma dessas pessoas admiráveis! Um músico – e isso, por si só, não é pouca coisa! – de mãos e cabeça repletas de idéias. Reconhecido, desde sempre, por seus companheiros de som em todo o mundo, inventou uma maneira única de tocar o contra-baixo elétrico e, se não bastasse, se aventura com grande sucesso pelo violão, bateria, piano, etc. Hermeto Pascoal já disse, e todos nós concordamos: Arismar é um dos músicos mais interessantes que pisam, hoje, a face desse planeta.

Paulo Cesar Pinheiro é outra pessoa admirável! Um poeta – e isso, por si só, não é pouca coisa! – que dispensa apresentações. Ao longo de sua bela e já longa carreira conviveu e compôs com as pessoas mais interessantes da Música Popular Brasileira – entre eles Baden Powell, Eduardo Gudin, Tom Jobim, Edu Lobo, Guinga, Sérgio Santos, Arismar do Espírito Santo (...Além de ter suas canções interpretadas por cantoras como Elis Regina, Elizeth Cardoso e Clara Nunes). Paulo Cesar Pinheiro, enfim, é um patrimônio cultural brasileiro!


Pois bem. Arismar contou, certa feita (televisão? jornal impresso? não me lembro agora...), que havia composto uma música em parceria com Maurício Carrilho (outra referência musical incontornável!!!) e Paulo Cesar Pinheiro sobre o prazer de tocar! Vejam só que maravilha!! Juntar a turma, dar risada e fazer um som é, de fato, uma das coisas mais encantadoras que eu já experimentei nessa vida!


Abaixo, em homenagem a todos os músicos desse mundão grande, vai a letra de “Tocar” – o samba que estou me referindo, composto por Paulo Cesar Pinheiro (com música de Arismar do Espírito Santo e Maurício Carrilho):


*


TOCAR


Um samba eu vou lhe dizer

É sempre bom de fazer

E faz a gente querer

Cantar


O canto quando ele vem

Garanto que é bom também

Por que não deixa ninguém

Chorar


Tocar é sentir a presença

De Deus pelo som

Tocar é ouvir a batida

De um só coração


Nenhum poeta vai definir

Quando se toca é melhor calar

Não dá pra dizer

O prazer que há


Só quem sabe é quem sabe tocar


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A terceira margem

em breve

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Ora essa, rapaz!


Para ser entoado como um mantra:

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem." (João Guimaraes Rosa – Grande Sertão: Veredas)


terça-feira, 16 de junho de 2009

"Lévi-Strauss, fundador do pós-estruturalismo"


O título é de uma palestra de Eduardo Viveiros de Castro apresentada na USP por ocasião do centenário de Claude Lévi-Strauss (2008). A seguir cito duas passagens de uma entrevista de Claude Lévi-Strauss concedida à Didier Eribon (publicada no livro: De perto e de longe, 1988) que me parecem corroborar esta tese de Viveiros de Castro. Depois das citações faço alguns comentários, desajeitados:


(1) Antropologia Simétrica

Ao escrever [As estruturas elementares do parentesco] o senhor tinha, no entanto, a impressão de estar produzindo uma demonstração científica?

Não acredito que nossas ciências humanas e sociais jamais possam aspirar ao status de ciências verdadeiras. No máximo tentei dar um pequeno passo nessa direção. Entre nós, as variantes são inúmeras, com o observador envolvido inextricavelmente com seus objetos de observação; enfim, os meios intelectuais de que dispõe, estando no mesmo nível de complexidade dos fenômenos estudados, jamais podem transcendê-los”


(2) Sociologia Pós-Social

Mas, em certo sentido, essas descobertas contribuem para apagar a oposição natureza/cultura.

A oposição conserva seu valor metodológico. Ela constitui nosso baluarte contra as ofensivas estimuladas por um espírito primário e simplista como o da sociobiologia, que quer reduzir os fenômenos culturais a modelos copiados da zoologia.

Se a distinção entre natureza e cultura um dia vier a esfumaçar-se, a reconciliação não acontecerá através do que chamaríamos, na linguagem atual, de interface dos fenômenos humanos e animais, ou seja, lá onde certas características humanas, como a agressividade, parecem assemelhar-se ao que se observa no comportamento de outras espécies. Se a aproximação acontecer, será pelo outro extremo: entre o que existe de mais elementar, mais fundamental, nos mecanismos da vida, e o que há de mais complexo nos fenômenos humanos. Se a fronteira for abolida, isso se dará atrás da cena em que se desenrola o debate entre os defensores da cultura e os defensores da natureza”


Alguns comentários sobre esses trechos:


(1) Antropologia Simétrica: até onde entendo, esta expressão se refere, digamos, a uma solução aventada aos imperativos epistemológicos postos pela antropologia. Quatro pontos são fundamentais para a antropologia simétrica:

a) reconhecer que o observador está inextricavelmente envolvido com seus objetos de observação, ou seja, que o antropólogo está imediatamente implicado nas relações que mantêm com aqueles com quem escolheu conviver e compreender. Mas que relações são essas?

b) Para a antropologia, uma dessas relações é, necessariamente, a relação de conhecimento. E este ponto não precisa ser polêmico, pois é forçoso admitir que, a princípio, não há nada de mal no projeto antropológico de conhecer o outro... É certo que algumas formas de conhecimento se fundamentam num jogo de relações assimétricas - mas essas são, justamente, as formas que todos nós consideramos ilegítimas e que queremos escapar! [...Não há razões para afirmar que essas formas assimétricas encerram todas as possibilidades do conhecer! Aliás, penso que essas formas assimétricas não adentram qualquer projeto de conhecimento: sempre que há conhecimento, as relações se dão em outro registro...]. Este ponto, portanto, afirma a possibilidade de uma relação simétrica de conhecimento. O primeiro passo nessa direção é reconhecer que antropólogos e nativos, cada qual do seu lado, são, ambos, 'antropólogos' e 'nativos' - ou seja: de termos de uma relação unilateral, 'antropólogos' e 'nativos' passam a ser indicados entre aspas, pois passam a designar posições constituientes de uma relação de mão dupla, a saber, uma relação onde as pessoas envolvidas são, ao mesmo tempo, observados pelo outro e observadores dele.

c) O terceiro ponto coloca uma questão fundamental: se esta relação é uma relação de alteridade - visto ser uma relação caracterizada, sempre, por equívocos mútuos, desacordos sobre as representações um do outro, mal entendidos diversos de ambas as partes [...Quem se lembra do "Famigerado" de Guimaraes Rosa?...], então é legítimo, a princípio, imaginar que, se o outro é mesmo outro, então seu pensamento é outro que o meu, e a antropologia que ele faz de mim não é a mesma que faço dele. Assim, do ponto de vista epistemológico, o que entra em relação neste encontro são diferentes antropologias. Ponto importante, essa diferença não significa assimetria: as antropologias em relação possuem o mesmo estatuto epistemológico.

d) Portanto, os meio intelectuais que o antropólogo dispõe são do mesmo nível de complexidade dos fenômenos estudados e, desse modo, não podem transcendê-los. Esta é a condição, o ponto de partida do trabalho do antropólogo. Mas é preciso acrescentar um ponto aqui: os meios intelectuais que o antropólogo dispõe (ENTENDA-SE: seu instrumental conceitual), apesar de serem tão complexos quanto os fenômenos sobre os quais se detêm, não são os mesmos meios implicados nesses fenômenos, e, por isso mesmo, não são, a princípio, os mais apropriados para estudá-los. A questão é que o instrumental conceitual mais apropriado não se encontra dado imediatamente nos meios intelectuais do antropólogo. Ao contrário, este instrumental mais apropriado deve emergir daquele encontro de antropologias (a minha e a do outro). Ponto importante, este encontro se dá na procura de uma relação de mútua 'contaminação': não para aculturar o antropólogo ou o nativo - pois não se trata de uma relação de identificação -, mas para tornar possível canibalizar (sensu Oswald de Andrade) o pensamento do outro como uma virtualidade legítima e possível do pensar, pois, aqui, trata-se, sim, de um processo de auto-diferenciação, ou, dito de outra forma, de um processo de potencialização do sujeito (eu) através do outro.


(2) Sociologia Pós-Social: sobre a sociologia pós-social tenho muito mais a ler do que a escrever. Mas até onde entendo, essa passagem de Lévi-Strauss me parece visionária (no sentido de fundadora do pós-estruturalismo...). Pois não passaria por aí a sugestão da sociologia pós-social?! Fazer a interface humano-animal não mais como a sociobiologia, a saber, a partir dos comportamentos ditos instintivos (como a agressividade), mas a partir do outro lado, ou seja, do “que existe de mais elementar, mais fundamental, nos mecanismos da vida, e o que há de mais complexo nos fenômenos humanos”. Como diz Bruno Latour, o barato é multiplicar as agências do mundo, é entender como humanos e não-humanos são agenciados mutuamente nas relações em que se encontram... É por aí, não é?! Algum eventual leitor poderia me ajudar aqui?...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

"Um rio sem margens é o ideal do peixe"


O título foi retirado de uma carta de Guimaraes Rosa à João Condé acerca do livro Sagarana. O trecho a seguir é de uma entrevista do próprio Guimaraes, concedida à Günter W. Lorenz (in. Diálogo com a América Latina)


“Que nasci no ano de 1908, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim, são a maior aventura. Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço do infinito. Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nessa vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para essas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade. A estas altura, você já deve estar me considerando um charlatão ou um louco.”



Primeiras notas:

O infinito para Rosa é...

(1) O espaço onde se deve mergulhar, para, envolto nele, vivê-lo. Em diversos momentos ele expressa essa idéia de um infinito imanente, como quando diz: “Vivo no infinito”. Ou, mais adiante, na mesma entrevista: “...para quem, como eu, se sente no infinito como se estivesse em casa, o crocodilo com duas vidas...”

E é com essa imagem do crocodilo, penso, que ele procura nos passar tal idéia. Rosa diz que gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco – um gosto, diria alguém, estranho... Talvez, mas porque ser um crocodilo?

a) Porque um crocodilo vem ao mundo como um magister em metafísica. Um magister, segundo o dicionário, é o mesmo que mestre. Mas um mestre próximo da figura do sábio: alguém mais afim aos mestres orientais que ao PhD. Enfim, um crocodilo, com seus métodos próprios de imersão, é um mestre de meta-física...

b) Porque um crocodilo vive nos grandes rios. “Para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria”. E assim o é porque os rios têm as dimensões infinitas da alma humana: “Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens”. Entre as duas margens flui a superfície, mas a terceira margem é mais embaixo: pro fundo, e pro meio, os peixes vivem seu ideal...


(2) O infinito é uma aventura que escapa ao tempo, ou melhor, que escapa à medida do tempo (“não tem início nem fim”). Um tempo, portanto, sem momento. Mas sem momento porque resiste a ele (“o momento não conta”). Se assim for, se estamos seguindo uma boa pista, este tempo infinito não seria exatamente um tempo sem momento, mas contra o momento... [Talvez, aqui, concorde comigo um leitor antropólogo – a quem, aliás, coloco a seguinte questão: tomando a diferença metafísica (e rosiana) entre História e Estória, as sociedades ditas de história fria tenderiam a registrar estórias quentes? E, ao contrário, as sociedades ditas de histórias quentes tenderiam a contar estórias frias? Deixo a questão para este eventual leitor...]

Penso, por fim, que esse tempo infinito rosiano não possui uma direção fixa, ou predeterminada (como no esquema passado-presente-futuro). Vide o trecho:


“Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nessa vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para essas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente”


Ah... Quanta graça há nesse trecho! As pessoas que, como Rosa, crêem “já ter vivido uma vez”, geralmente crêem, ao contrário de Rosa, que foram nobres franceses, rainhas inglesas, feiticeiros russos, chefes indígenas... Eu nunca tinha ouvido alguém dizer que em sua outra vida tinha sido, nada mais e nada menos, que a mesma pessoa. Pois é isso que Rosa está a confessar: nessa outra vida ele tinha sido, também, brasileiro e João Guimarães Rosa! [Eu, se fosse João Guimarães Rosa, também não quereria ser diferente em minha outra vida...] De todo modo, ao dizer “quando escrevo, repito o que vivi antes”, não acho que ele esteja se referindo às lembranças da aurora de sua vida, de sua infância querida, cujos anos sua pena, sobre o papel, trariam mais e novamente... Aqui, acho, trata-se de outra coisa. Afinal, como se pode viver duas vidas sendo, sempre, João e brasileiro? Isso só seria possível, talvez, se ele tivesse a sua disposição, para repetir, não as memórias do que até então viveu, mas a experiência inteira de sua própria vida toda – esta mesma vida, de cabo à rabo, que está vivendo agora: do vivido ao vivir... Como se à disposição de Rosa se apresentasse seu passado-presente-futuro, pra ser vivido repetida e infinitamente.

Esta leitura parte de um paralelo com um conto seu, intitulado “A menina de lá” (in.: Primeiras estórias). Quem se lembra? “Sua casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus” (Rosa - "A menina de lá"). Aí morava, com os pais e tiantônia, a menina de lá: Nhinhinha, quieta de um tanto, sempre sentadinha onde se achasse. Dizia, na estranheza de suas palavras, coisas de juízo esquisito e sentido enfeitado. Gostava de olhar pro céu envolta no casacão da noite: “Eeu? Tou fazendo saudade”. Outra hora, quando falávamos de parentes já mortos, ela riu e disse: “Vou visitar eles...” Ouvimos essas palavras com espanto e desgosto – mas é aí, então, que ela, a de lá, começou a fazer milagres.


“Nhinhinha, só, sentada, olhando o nada diante das pessoas: “Eu queria o sapo vir aqui”. Se bem a ouviram, pensaram fosse um patranhar, o de seus disparates, de sempre. Tiantônia, por vezo, acenou-lhe com o dedo. Mas, aí, reto, aos pulinhos, o ser entrava na sala, para aos pés de Nhinhinha – e não o sapo de papo, mas a bela rã brejeira, vinda do verduroso, a rã verdíssima. Visita dessas jamais acontecera. E ela riu: “Está trabalhando um feitiço...” Os outros se pasmaram; silenciaram demais” (Rosa - idem)


Então, o que ela queria, que falava, súbito acontecia. Só que ela queria pouco... Quando veio a grande seca, seus pais experimentaram pedir à Nhinhinha que ela quisesse a chuva: “Mas não pode, ué..”. Eles insistiram. E ela, na resposta, também: “Deixa... Deixa...”. Depois de duas semanas, então, ela quis o arco-íris. Choveu e veio o arco-íris. Mas, porque só agora? Ora, porque agora podia, ué! – o que eu interpreto como: ela não operava milagres, muito menos adivinhava: ela só repetia, só queria repetir, o que além tinha vivido antes. Como se a volta da Terra em torno do Sol fosse mais rápida na intuição dela – uma velocidade pra ela, outra pra intuição dela... “E para essas duas velocidades, defasadas - diria Rosa... - um cronômetro apenas não é suficiente”